sábado, 12 de março de 2011

L'amour Est Un Oiseau Rebelle...

Macabéa não entendeu o valor, enxergou apenas o peso da frase por não dominar o idioma pensou, que poderia ter  aproveitado o tempo ocioso para aprender, mas que agora já era tarde demais pra saber. Deixe ser o que quiser, pois Macabéa não arde, Joana sim .
Joana sentiu um  súbito peso na face norteado por cinco dedos das suas próprias mãos, no chão não colocou a mão na face, como faz os que sentem dor, mas olhou nos olhos do agressor sem lacrimejar, já longe de si imaginou ter a criadagem a seu dispor, pediu a Bruna sua governanta que preparasse seu drinque, dispensou Ferruccio seu motorista sentou-se na varanda em  sua velha e confidente poltrona já mofada pela umidade, colocou Callas na vitrola  e degustou cada teor alcoólico, imaginou estar presenteado todos  os atos da apresentação, sentiu  a dor da soprano em cada altivez de sua voz, fechava os olhos franzia a testa levava a mão direita  ao peito e curvava o corpo como se aquilo lhe causasse uma dor latente.
Surtou silenciosamente ao ouvir;
"L'amour est enfant de bohème,
Il n'a jamais connu de loi:"
Silêncio... Nenhum  movimento, amainada chorou  por pura raiva de estar chorando agora ouve  "Mon cœur s'ouvre à ta voix" e pelas poucas vezes que externou seu sentimentalismo, chorou como nunca havia chorado, indagou-se, julgou-se;
- Meu Deus o Senhor que é tão poderoso me afaste desta dor...
Aguardou a resposta de Deus. Irritou-se
-Coisa estranha que nunca aparece, e que eu nunca consigo sentir, que amor é esse?
A relação de Joana com o Altíssimo nuca foi das melhores, não acreditava em sua existência, questionava o sofrimento das pessoas, questionava como o amor do Senhor permitia esse sofrimento.
-Claro que nunca saberá me responder, vê sofrimento pior que esse meu acesso de bestilidade sentimental e não faz nada.  Absolutamente nada... Silêncio e a voz da musica toma a varanda e o quarto que pela primeira vez sentiu a luz do dia e a brisa da chuva,  a voz da cantora externava a dor e Joana repetia;
Ah! réponds à ma tendresse!
Verse-moi, verse-moi l'ivresse...Bruna acostumada com as sandices de sua patroa estranhou, geralmente tão silênciosa e sorrateira consigo  mesma Joana gritava feito louca tentando acompanhar Maria Callas, pensou nas comparações e descobriu  por que se identificava tanto com Callas, ambas tiveram um átimo de vida e antes de morrem já estavam mortas, só precisavam sumir como matéria. Bruna pergunta:
- A senhora deseja algo mais?
-Ridícula! Joana grita e repete com o dedo apontado para a governanta que consternada olha para o chão.
- Ridícula é isso que eu sou, assume serviçal fiel e apática. Sabe o que eu estou ouvindo?
Bruna ainda mais assustada responde;
- Não senhora.
- Claro que não sabe! é notório   a falta do saber em você.
Joana se enxerga em Bruna e diz;
-Eu sou você, mas você nunca será eu... Nunca! Gritava e a governanta sem saber o que escutar com os gritos de Callas  e de Joana, com o  copo de vidro na mão da sua patroa enlouquecida, com a quantidade de cigarros acesos, com o porte deselegante de uma mulher que pra ela sempre foi um espelho de postura "La mamma morta", Bruna tenta discretamente sair do quarto, mas Joana segura a sua mão;
-Espera! Sente comigo essa dor, sente a dor que essa música me causa.... Parte o meu coração, que apesar de duro pulsa e sente como o seu, o que nos diferencia é que eu não choro todos os dias por todas as coisas junto todas elas e choro uma vez só na vida.
Bruna  sente as lágrimas  escorrerem a face e sentada na poltrona intocável de sua patroa vê o que jamais imaginou, Joana próstata em seu colo com a cabeça em seus joelhos, declarando sua fraqueza, que durante todos os sete anos de prontidão nunca foram vistos. Bruna surpresa  enxerga em Joana uma mulher forte e claro diferente das outras, mas, uma mulher. Joana continua a falar.
-Uma vez só na vida, Santo e imaginável Deus uma vez só na vida, eu me permito chorar que é pra não te dar o gosto de me ver suplicar muitas vezes, e pode contar isso aos seus promotores, para que  no dia do meu juízo final eles me acusem sem piedade.
- Me perdoa ó ser inatingível por não acreditar.
Joana sentiu-se tão incapaz de merecer  o perdão, que se levantou do colo de Bruna pediu que ela se retirasse  sem muitas palavras e que isso fosse esquecido.
Olhou-se no espelho limpou as lagrimas dos olhos, com movimentos raivosos pensou em Otávio, e na covarde atitude de magoar que os homens exercem com extrema facilidade. Lembrou de cada frase escrita no bilhete que por acaso achou em suas vestes que dizia “ Sabes quão exuberante és?  Sinto minha boca  salivar excessivamente ao te olhar”  tão  vulgar quanto dolorido Joana sabia que essas palavras não eram para ela , e sim para Tatiana amante de Otávio, oculta e antiga, mais um dos casos do único homem por qual Joana sentia ardor na face ao pensar.
Como uma Fênix  deitou de tão fadigada e apesar da demora dormiu, e inconscientemente rezou a Deus;
- Senhor faça com que eu esqueça essa maldita noite  chuvosa de março, e que amanhã a minha alma prolixa e arguta se encha de afazeres para não recordar um só instantes das palavras lidas . Que o meu corpo se canse antes do espaço reservado aos meus achaques, que se possível eu tenha uma força extrema para não abrir a boca.
Senhor que a Macabéa que existe em mim me sufoque , pois só assim suportarei contraditoriamente a ultima e sorrateira traição.Que o amanhã me faça renascer das cinzas  de hoje.
Com ardor Gabriela Rodrigues Farias. Joana Macabéa Lispector
 

2 comentários:

  1. Que texto é esse, gente?
    Sério, Gabriela, são poucos textos anônimos que vejo assim... tão profundo, denso, diferente, NARRADO.
    Seu talento é demais! Continue escrevendo.. tem mta coisa aí dentro que a gente precisa ler rsrs
    Um beijo!

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  2. Ai, eu li ele todo msmo
    Fiquei instigada quando comecei a ler pra ver o final dele rsrs
    Um dia a gente escreve juntas sim, só não sei se consigo chegar ao seu nível rsrs
    De verdade, seu potencial é imenso!
    Beijão =)

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